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A operação na Cracolândia

Exagerar a importância e o alcance da operação iniciada terça-feira na Cracolândia, como vêm fazendo a Prefeitura da capital e o governo do Estado, só serve para criar frustrações e comprometer seus resultados. A julgar pelas ações desenvolvidas até agora e pelos meios – policiais e de assistência médica e social – que os governos municipal e estadual se mostram dispostos a empregar naquela área da cidade, tudo indica que o poder público quer mesmo é apenas reafirmar a sua intenção de estar presente ali, para evitar que o problema se agrave, talvez preparando o terreno para medidas mais ousadas no futuro.

A região foi ocupada por um contingente de 100 policiais militares (PMs) e 30 guardas civis metropolitanos, que retiraram, sem maiores dificuldades, cerca de 2 mil usuários de crack dos pontos em que costumam se reunir, como o entorno da Praça Júlio Prestes. Procedeu-se em seguida à limpeza – com a retirada de mais de 7 toneladas de lixo de todo tipo – a lavagem desses locais. A maior parte dos usuários, que haviam se espalhado pelas imediações da Cracolândia, logo voltou para aqueles pontos, apesar da presença ostensiva dos policiais.

Um dos objetivos da operação, que faz parte do Plano de Ação Integrada Centro Legal, é prender os traficantes que atuam na região e, ao mesmo tempo, não tolerar o consumo público de crack. Pretende-se com isso forçar o usuário a buscar ajuda para se tratar. Em primeiro lugar, como isto já poderia ter sido feito há muito tempo, é preciso saber se agora há de fato uma firme determinação de combater o tráfico de narcóticos. Se há, deve-se levar em conta a advertência feita pelo vice-presidente da Comissão Nacional da Criança e do Adolescente da OAB, Ariel Castro Alves. Lembra ele aquilo que é bem conhecido dos especialistas: “Para dificultar a chegada das drogas, é importante haver um trabalho de inteligência por parte da Polícia Civil. A investigação funciona mais do que o trabalho ostensivo da PM”.

Em segundo lugar, mesmo que de uma forma ou outra se consiga cortar o fornecimento de droga, nada garante que isto por si só leve os dependentes a buscar tratamento, ao contrário do que pretende o coordenador de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania, Luiz Alberto Chaves de Oliveira: “A falta de droga e a dificuldade de fixação vão fazer com que as pessoas busquem o tratamento. Como é que você consegue fazer o usuário se tratar? Não é pela razão, é pelo sofrimento. Dor e sofrimento fazem a pessoa pedir ajuda”.

O seu tom dramático não comove nem convence especialistas na questão. O psiquiatra Marcelo Ribeiro, ouvido pelo Estado, afirma que essa estratégia não tem lógica. A seu ver a “sensação de fissura” provocada pela abstinência impede que o usuário tenha consciência de que precisa de ajuda: “Ela causa outras reações, como a violência”. Já Arthur Pinto Filho, promotor de Justiça de Saúde, diz não conhecer estudo científico que comprove que a abstinência leva alguém a procurar tratamento.

O mais provável, portanto, é que a primeira reação do dependente, na angústia da abstinência, seja procurar outros fornecedores fora da região. E como o preço da droga, tornada rara, sobe, ele pode apelar para a violência para conseguir dinheiro.

É por essas razões que há muito se sabe – e as autoridades são as primeiras a não desconhecer isso – que o problema da Cracolândia só pode ser resolvido por uma ação conjunta da polícia, no combate ao tráfico; de serviços de assistência médica e social para convencer os dependentes a se tratar; e da Justiça para decidir sobre os casos em que deve haver internação compulsória.

Embora os governos municipal e estadual venham prometendo isso há muito tempo, inclusive agora – não é por acaso que o plano que se promete executar seja de “Ação Integrada” -, eles não dispõem, como é notório, da ampla rede de assistência indispensável ao êxito de uma iniciativa como essa.

A operação na Cracolândia é importante para manter um mínimo de ordem na região. Isto não é pouco, mas fica muito aquém das promessas irrealistas e grandiloquentes da estratégia da “dor e do sofrimento”.

O Estado de São Paulo

Veja os centros de atendimento que ajudam usuários de droga em SP

Caps atendem dependentes de álcool e outras drogas.
Não é preciso marcar consulta e nem entrar na fila de espera.

O crack, uma droga bastante devastadora, está cada vez mais viciando pessoas e destruindo famílias. Cinco vezes mais forte do que a cocaína e também com valor inferior a outras drogas, ela é consumida a céu aberto em muitos pontos de São Paulo. A luta contra a dependência exige tratamento, disciplina, força de vontade de apoio psicológico.

Na capital, existem 22 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) que atendem dependentes de álcool e outras drogas. A maioria fica na Zona Leste – são oito unidades. Outros sete ficam na Zona Sul, três na Zona Norte, três na Zona Oeste e um no Centro.

Não precisa de encaminhamento, não tem fila de espera e não é preciso marcar consulta. O tratamento dura em média três meses. Os usuários são atendidos em níveis de atenção diferenciados – intensivo, semi-intensivo e não intensivo.

O projeto terapêutico individualizado é direcionado ao paciente e a sua família, em que são ofertadas várias modalidades de atenção psicoterápica e terapêutica, coordenadas por equipe multidisciplinar, além da medicação e consultas psiquiátricas.

Veja na página do G1 os endereços dos Caps na capital.

Casa abandonada vira ‘cracolândia’ em S. José

Thiago Leon

Thiago Leon

Vizinhos reclamam de insegurança e sujeira; PM diz que não pode agir sem que haja denúncia

Filipe Rodrigues
São José dos Campos

Uma casa abandonada na rua Major Antônio Domingues, no centro, virou a nova ‘cracolândia’ de São José. Segundo os próprios usuários, pelo menos 20 dependentes químicos se reúnem no local diariamente para usar crack.

A movimentação no imóvel é intensa durante todo o dia. Entre moradores e comerciantes da região, a sensação é de insegurança.

Em janeiro, uma casa vizinha, a poucos metros, era o ponto de encontro dos dependentes. Após denúncias dos moradores, o imóvel foi demolido.

Segundo a Polícia Militar, só seria constatado algum crime por parte dos dependentes se o proprietário da casa fizesse uma denúncia.

A Secretaria de Desenvolvimento Social informou que irá acionar o proprietário do imóvel para que ele tome providências.

O dono da casa não foi encontrado ontem para comentar o assunto.

Consumo
O VALE esteve ontem na casa e, segundo os próprios usuários, o local é utilizado há cerca de duas semanas pelos dependentes.

Na casa, está morando um homem de 36 anos que diz ter recebido autorização do proprietário do imóvel para permanecer ali.

“Eu comecei a fazer uns trabalhos para ele. Aí vem um pessoal aqui para gente dar um pega (no crack), conversar”, disse F.

Uma das visitas constantes ao imóvel é de A., 29 anos. O rapaz diz que vai ao local três vezes por dia.

“Não dá para contar quantas pedras a gente usa, 20 ou 30. É de perder a conta. Uso crack há três anos, já tentei internação duas vezes, mas sempre saio quando bate a abstinência”, disse.

Para que a prática não chame a atenção, F. mantém o portão da casa trancado com uma corrente e um cadeado. Só aparece na rua quando algum usuário lhe chama.

“Não queremos incomodar. Só um lugar para ficar. Quando acaba o dinheiro, saímos para pedir e comprar mais”, disse F.

História
A rua tem histórico de ser utilizada durante a noite para consumo de drogas e prostituição. Moradores e comerciantes reclamam que falta atuação da polícia e da prefeitura.

“Alguns comércios fecharam e outras pessoas se mudaram, o que fez com que a rua ficasse menos movimentada. Por isso, essas pessoas preferem usar drogas aqui”, diz uma mulher que mora em um prédio nas proximidades.

O medo de quem transita pela região é o risco de roubos e furtos em busca de dinheiro para a compra de drogas.

“Como vou parar meu carro aqui? Há vezes que encosto e eles já vêm pedir dinheiro. E se eu não der? O que vão fazer”, questiona um morador.

Um comerciante afirma que outro problema trazido pelos dependentes é a sujeira. “Se fingimos que não vemos, não há risco. Mas todo dia de manhã, minha calçada está suja”, disse o lojista.

Lei dificulta ação, afirma a PM
São José dos Campos

A Polícia Militar diz conhecer o problema do consumo de drogas no imóvel, mas afirma que é difícil agir por ser uma área particular.

“Não podemos invadir o local. Se o proprietário reclamar, aí haverá um crime”, disse o capitão Marcelo de Oliveira de Garcia, responsável pelo policiamento no centro.

Durante as abordagens ao imóvel, os policiais fizeram revistas, mas não encontraram drogas ou pessoas foragidas.

“Nos últimos dois meses, prendemos 20 foragidos em locais de consumo de droga no centro. Mas ali, a não ser que flagremos uma quantia grande de droga, não há crime.”

A Secretaria de Desenvolvimento Social, responsável pelo tratamento de dependentes, disse que também não pode entrar em áreas privadas.

Uma intimação será entregue ao dono da casa. Caso nenhuma providência seja tomada, o proprietário poderá perder o imóvel.