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Posts Tagged ‘ Trauma

Resiliência ao estresse

A capacidade de ser resiliente em lidar com o estresse é apenas parcialmente genética. Aprender os conjuntos de habilidades específicas (formação consciência) pode expandir nossas habilidades em lidar com o estresse e nos permitir desenvolver respostas positivas em lidar com as adversidades da vida.

A principal área do cérebro que lida com o estresse é o sistema límbico, ou seja, a unidade responsável pelas emoções.

Sempre que percebemos uma ameaça iminente, ou imaginada, o sistema límbico responde imediatamente através de seu sistema nervoso autônomo – complexa rede de glândulas endócrinas que automaticamente regula o metabolismo. Depois que o perigo percebido passou, o seu corpo, então, tenta voltar ao normal. Mas isso pode não ser tão fácil, e torna-se ainda mais difícil quando ativado repetidamente em um curto período de tempo, ou à medida que envelhecemos.

Apesar do sistema nervoso simpático entrar em ação imediatamente ao percebemos uma ameaça iminente ou imaginada, é muito lento para se desligar e permitir que o sistema nervoso parassimpático se tranquilize para acalmar as coisas.

Uma vez que sua resposta ao estresse tenha sido ativada, o sistema sabiamente se mantém em um estado de prontidão. Este estado de prontidão, caso continue ao longo do tempo, tem um preço na saúde física e emocional.

Quando estamos trabalhando em um ambiente que por sua própria natureza, dispara automaticamente uma “resposta de medo” primitivo como percebido pelo nosso sistema nervoso central, ou seja, o perigo pode ser real ou imaginária do nosso cérebro, respondendo da mesma forma para qualquer situação, que pode facilmente tornar-se um estresse crônico, que quando não bem administrado, pode resultar em estresse pós-traumático e em seguida em um estado de esgotamento físico e mental, cuja causa está intimamente ligada à vida profissional.

Os problemas físicos relacionados ao estresse crônico incluem a redução da resposta imunológica, a tensão muscular crônica, e o aumento da pressão sanguínea. Estes problemas podem levar a sérias doenças potencialmente fatais, como ataques cardíacos, doenças renais e câncer. Os primeiros sintomas são relativamente leves, como dores de cabeça crônicas e maior susceptibilidade a resfriados e outros. Com mais exposição ao estresse crônico, os problemas de saúde mais graves podem se desenvolver da seguinte forma:
• depressão
• diabetes
• perda de cabelo
• doença cardíaca
• hipertireoidismo
• obesidade
• transtorno obsessivo-compulsivo ou ansiedade
• disfunção sexual
• dentária e doença periodontal
• úlceras
• câncer e outros
A gestão do estresse é a chave e não a eliminação do estresse. O desafio nos dias de hoje é não deixar que o sistema nervoso simpático fique cronicamente excitado. Isso requer conhecimento e uso adequado de técnicas que trabalham para ativar suas respostas de relaxamento, diminuindo a excitação do sistema simpático.

Ao avaliar a natureza e a cultura da corporação conseguimos determinar o que está causando e disparando o estresse. Uma vez, que estes gatilhos são identificados, uma receita individualizada pode ser desenvolvida para apoiar e construir a resiliência ao estresse através do treinamento de conscientização para as pessoas que trabalham dentro desta determinada empresa, como por exemplo, uma simples pausa de 15 minutos, duas ou três vezes durante o dia pode reduzir muito a resposta ao estresse através de um fortalecimento do sistema parassimpático ou tranquilizante do nosso sistema nervoso central.

Isso resulta em uma maior produtividade do trabalhador, na criatividade, uma melhor saúde e mais longevidade. Uma vez que as pessoas entendem o dano potencial que o estresse crônico pode causar e como as práticas específicas podem reprogramar nossas respostas neurobiológicas, podendo trabalhar para o nosso próprio interesse para tornarmos mais resilientes ao estresse.

Algumas dicas:
• Atitude: o desenvolvimento de auto falar positivamente, ao invés de ir com uma resposta de medo;
• Conscientização: compreensão sobre o que e por que você sente algo e como isso ajuda a acalmar o sistema nervoso;
• Controle: saber o que está dentro do controle e o que está fora do controle e aceitá-lo;
• Cultive o otimismo: anotar cinco pequenas coisas de cada dia que são positivas e trazer um sorriso ao seu rosto, levando 30 segundos para experimentar cada um deles, permite uma mudança bioquímica em um quadro mais positivo e uma estrutura mais resistente de espírito;
• Humor riso: aumenta a imunidade;
• Meditação: Sentar-se em silêncio por 5 minutos todos os dias com um foco simples, como por exemplo, apenas experimentando e repetindo, “eu estou aqui agora, eu estou aqui agora, eu estou aqui agora”, somente repedindo esta frase, aceite o que vir em sua mente e volte para o seu foco, “Eu estou aqui agora, eu estou aqui agora”;
• Cultive Espiritualidade: isso atrai confiança na vida;
• Tenha paciência com você mesmo.

Trabalhos de sensibilização, conscientização e treinamento podem proporcionar uma resistência a vida e tudo o que ela nos oferece.

Além do estresse crônico, as pessoas que trabalham principalmente na área de proteção de segurança terá que lidar com sequestros. Nestas situações, o sistema nervoso central permanece perpetuamente ligado.

Tudo o que eu já escrevi acima é muito amplo, se uma pessoa foi vítima de um sequestro, não apenas a pessoa que passou pela experiência do sequestro, mas também toda a família, amigos e colegas de trabalho são afetados.

Estresse pós traumático pode impactar negativamente em todas as áreas de sua vida. É importante compreender e trabalhar com esta situação sistemicamente, a fim de restaurar a família, amigos e colegas de trabalho. Muito do que precisa ser feito é contra-intuitivo e deve ser delicadamente tratado por um especialista, para que o trauma do sequestro provoque o mínimo impacto em suas vidas e que o processo de cura ocorra.

Tenho trabalhado por 46 anos nesta área e felizmente pesquisas e descobertas recentes em neurobiologia nos permite trabalhar de forma rápida e eficaz com estas questões. As abordagens tradicionais e terapias são muito menos eficientes nessas situações. Pois os sentimentos de perigo, desesperança, desespero, privação podem dominar a vida das vítimas.

Assim, criei uma abordagem que se chama Resolução Neurobiologica do Trauma que reúne meu pós doutorado e mais de 18 tipos de especializações que fiz em minha carreira profissional.

Saber por que, quando e como aplicar as técnicas certas no momento certo, pode fazer toda a diferença na transformação de uma vítima ou o sobrevivente que passou por uma trauma.

E Lembre-se: “A vida é 10% do que acontece comigo e 90% de como eu reajo a isso”. John Maxwell

*Stephen Paul Adler é Autoridade Sênior em Psicanálise, atuando há 46 anos em Nova Iorque. Pós-doutor em TEPT, é certificado em 18 tipos diferentes de psicoterapia, lecionando eminstituições como a New School for Social Research (Nova Escola de Pesquisa Social), da Universidade de Nova Iorque, a NationalPsychologicalAssociation for Psychoanalysis (Associação Psicológica Nacional de Psicanalistas) eno NationalInstitute for Psychotherapies (Instituto Nacional de Psicoterapias).Um dos maiores experts do mundo em Hipnose Ericksoniana.É reconhecido por lidar com questões relacionadas a sequestro, abuso físico e sexual, e atos de terrorismo, ele tem dado treinamentos no Brasil, China, Guatemala, Índia, México, e Estados Unidos.

São Paulo, capital do arrastão

Como uma onda de assaltos coletivos faz a população da maior cidade do País mudar de hábitos e buscar a segurança privada.

Ser surpreendido por assaltantes em seu próprio apartamento ou durante um jantar em um restaurante é uma desagradável experiência da qual os paulistanos têm cada vez mais medo. Os arrastões estão se tornando comuns na cidade de São Paulo. Neste ano, foram registrados 13 crimes desse tipo em condomínios, o mesmo número de ocorrências de todo o ano passado. Entre janeiro e maio, 12 restaurantes de bairros de classe média alta da maior cidade do País sofreram arrastão. Em 2011, houve 23 casos. O episódio mais recente aconteceu na pizzaria Brás, no bairro de Higienópolis, localizada a menos de 100 metros de uma base da Polícia Militar. Trinta clientes foram roubados por quatro homens que levaram relógios, celulares, joias e um valor superior a R$ 3 mil, no domingo 27 à noite. A ação não durou mais do que dez minutos.

Com os frágeis sistemas de segurança desses locais e a ineficiência da repressão policial, a população sente-se acuada e muda seus padrões de comportamento para se preservar. Três vítimas do assalto à pizzaria Brás, por exemplo, lamentaram o ocorrido e disseram que o prejuízo só não foi maior porque já tomavam medidas de precaução antes. Um evita sair com relógio, outro deixa o iPhone em casa e o terceiro só leva um cartão do banco na carteira. Em vários bairros da cidade os cidadãos estão em alerta. “Nós vivemos com medo, as idas a restaurantes da região diminuíram bastante”, declara o presidente da Sociedade Amigos do Morumbi e Vila Suzana, Jorge Eduardo de Souza, que mora em um prédio onde também já aconteceu um arrastão.

Nos condomínios, as decisões para aumentar a segurança têm de ser conjuntas. Souza tenta convencer os vizinhos a adotar medidas adicionais de proteção, a exemplo do que aconteceu na rua do Símbolo, também na região do Morumbi. Os 660 moradores decidiram contratar no fim do ano passado uma empresa de segurança privada para fazer ronda diária no local. “Aconteciam assaltos todos os dias na rua e já houve até tiroteio. Fatalmente iria acontecer um arrastão por aqui.

Resolvemos prevenir”, diz a publicitária Valéria Inati. Segundo especialistas, existem dois tipos de criminosos que fazem arrastão. As quadrilhas que atacam condomínios e as que atacam restaurantes têm perfis diferentes. As primeiras agem em número maior e são mais bem armadas. São mais preparadas, estudam melhor o crime antes de cometê-lo. As segundas são menores, nem sempre bem armadas, porém mais perigosas. Precisam ser rápidas e, em geral, contam com a presença de menores de idade.

As empresas que atuam no setor têm detectado uma demanda maior por informações dos condomínios e dos comerciantes. “Nos últimos anos houve um aumento substancial de consultas sobre medidas de segurança por parte de síndicos de prédios. Já os donos de estabelecimentos comerciais nos procuram para saber sobre equipamentos, como câmeras”, afirma João Palhuca, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Segurança Privada de São Paulo. São medidas válidas, afinal essas iniciativas podem amenizar o problema, mas sem uma ação efetiva da polícia não há como solucioná-lo. Para tanto, é preciso investir em investigação. De acordo com Guaracy Mingard, professor de direito da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-subsecretário nacional de Segurança Pública, a Polícia Civil paulistana tornou-se máquina de fazer boletim de ocorrência. “Quase nada é apurado, só 5% dos roubos, em geral, viram inquéritos”, afirma. “Para reprimir os arrastões é preciso boa investigação criminal e prisão dos responsáveis. Assim, os outros ficam com medo porque sabem o risco do crime.”

Até o ano passado, os maiores alvos das quadrilhas eram edifícios com supersensores de movimento, câmeras de alta qualidade, segurança reforçada. “Os criminosos eram altamente qualificados, e nós demorávamos meses para prendê-los, pois não deixavam rastros”, diz o delegado Mauro Fachini, responsável pelas investigações de roubos desse tipo em São Paulo. “Atualmente, eles são mais amadores e buscam condomínios com segurança menos reforçada.” Há duas semanas, o prédio do personal trainer Cristiano Maffra, 34 anos, ficou sob o jugo de 16 bandidos durante quatro horas. No edifício, no bairro da Aclimação, o síndico foi agredido e os 11 apartamentos saqueados. “Acho que eles nunca escolhem o lugar para roubar ao acaso. Sempre tem alguém de dentro do prédio que passa alguma informação”, afirma o personal trainer. Experiência semelhante viveu a arquiteta C., de 43 anos, em fevereiro. Bandidos passaram a noite em seu prédio, em Higienópolis, e o apartamento dela serviu de cativeiro para 25 moradores. “Os assaltantes tinham informações privilegiadas de pelo menos duas pessoas, faziam perguntas diretas sobre eles e sobre seus bens”, conta ela, que precisou de terapia para superar o trauma. É preciso uma ação efetiva da polícia para que a população não seja refém em sua própria cidade.

Revista Istoé/SP

Segurança: por que resistir à prevenção?

Todos os dias, boa parte do noticiário é recheada de ações criminosas e expõe, por meio de tristes histórias das vítimas, as mazelas da segurança no país. São casos que deixam sequelas nos protagonistas e amedronta a população em geral. E como reagimos? Embora cada pessoa tenha seu jeito próprio de lidar com a questão, alguns comportamentos coletivos merecem ser destacados.

A nós, especialistas em segurança, intriga o fato de que muitos dos casos de violência – noticiados ou não – são evitáveis, ou pelo menos passíveis de causar menos danos, mas para isso é necessário adotar medidas preventivas, muitas vezes bem simples, que os indivíduos parecem não enxergar; as autoridades, não alertar e a sociedade, desconsiderar.

Hoje, só retiramos um carro da concessionária com uma apólice de seguro em vigor, travamos os cintos de segurança antes de engatar a primeira marcha e mantemos um ciclista no solo, imóvel, mesmo após uma colisão leve. Sabemos que acidentes graves também acontecem com carro zero kilômetro, que podemos quebrar um pára-brisa com a cabeça (e morrer) após um choque frontal a 60 km km/h e causarmos uma lesão definitiva na coluna vertebral se não tivermos a paciência de aguardar quinze minutos, deitados no asfalto, pela chegada de uma equipe de resgate profissional.

Bons exemplos, mas quando o assunto é a segurança da sua casa e moradores ou da sua empresa e funcionários, os brasileiros ainda estão longe de um patamar desejado. A grande maioria investe pela primeira em vez em vigilantes profissionais, câmeras, alarmes, monitoramento remoto ou controle de acesso somente depois de um forte trauma, de perdas significativas de bens materiais ou até de vidas. Então, que tal comprar uma apólice de seguro para o veículo ou usar cintos de segurança somente a partir do primeiro acidente? (se sobreviver, puder dirigir novamente e tiver dinheiro para pagar a oficina ou comprar um novo carro). Em casa, que tal colocar álcool, remédios e produtos de limpeza fora do alcance das crianças somente após as primeiras queimaduras e intoxicações?

Um dos segmentos da segurança que mais cresce atualmente no Brasil é o da eletrônica, porém ainda está longe do potencial gerado por um país com 190 milhões de habitantes. Temos hoje cerca de um milhão de câmeras auxiliando na segurança dos brasileiros. Com um quarto da nossa população e índices de violência bem menores, a Inglaterra tem mais de 3 milhões de câmeras somente em áreas públicas, enquanto a China, só em 2010, instalou mais de 10 milhões de câmeras.

De um total de mais de seis milhões de imóveis com condições de receber sistemas de alarmes monitorados no Brasil, apenas 11% efetivamente têm esses serviços (700 mil imóveis); os demais 89% participam diariamente das brincadeiras “coisa ruim só acontece com os outros” ou “quando tem que acontecer, acontece”, enquanto o número de imóveis com TV por assinatura passou da casa dos 13 milhões no último mês de janeiro.

É preciso mudar a cultura da segurança preventiva no País, volto a repetir. E para isso, essa mensagem terá de ser trabalhada exaustivamente. Voltando aos cintos de segurança, quantos ‘senões’, quanta resistência, quanta demora, para – enfim – reconhecermos e usufruirmos dos inegáveis benefícios preventivos deste equipamento? A grosso modo, podemos dizer que os cintos estão para os acidentes automobilísticos como os alarmes e as câmeras de segurança estão para os crimes. Os cintos não evitam uma batida, mas minimizam as conseqüências; um vigilante, um sensor de presença e uma câmera têm um forte apelo à prevenção de delitos e quando não os evitam, contribuem para a diminuição do tempo da ocorrência, minimizam os prejuízos e ajudam na identificação dos autores.

Quer um outro exemplo? Recentemente, a prefeitura de uma grande cidade brasileira noticiou a instalação de 100 câmeras inteligentes em pontos estratégicos do centro. A “inteligência” é um software que identifica vários eventos indesejáveis (pessoas pulando um muro ou veículos na contra-mão, por exemplo) que, se ocorrerem, disparam um alarme na tela do monitor e chamam a atenção do vigilante de plantão da central de monitoramento 24 horas (ou alguém acredita que uma pessoa, após 15 minutos de trabalho nesta função, consegue manter o nível de concentração necessário para olhar 16 câmeras divididas em pequenos retângulos num monitor de 20 polegadas e identificar todas movimentações suspeitas?)

Você, cidadão de bem, deve estar achando ótimo a instalação dessas câmeras, não é? Pois saiba que há vários tipos de resistências: os que dizem “os equipamentos são bons, mas não adianta instalar se não tiver mão de obra adequada para operar” poderiam mudar o discurso para “ótima notícia, mas vamos comprar também um programa de treinamento e reciclagem dos operadores”. Uma das manchetes dos jornais chamou os equipamentos de “câmeras dedo-duro”, dando uma conotação pejorativa a uma ótima solução para melhoria da segurança pública; assim fica difícil avançarmos: que tal renomear para “câmeras olho-vivo”?

Erasmo Prioste

Preso bando que torturava vítimas

Por Camilla Haddad – Jornal da Tarde

Com requintes de crueldade, uma quadrilha assaltava casas em áreas nobres da zona sul, jogava álcool no corpo das vítimas e ameaçava atear fogo caso elas não indicassem a localização dos cofres. Segundo a polícia, desde abril, pelo menos dez residências foram atacadas dessa forma. Três homens estão presos acusados de cometer os crimes e outros quatro estão foragidos. O caso foi apresentado ontem pelo Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic).

A estimativa dos investigadores é que os assaltantes praticavam até quatro roubos por semana. Quando saíam dos residências, os ladrões seguiam para a casa, na Favela Alba, na zona sul, e vendiam todos objetos de valor para a comunidade, entre eles televisores, DVDs, joias, roupas de grife e notebooks a preços bem menores do que realmente valiam. O comércio era feito de porta em porta, segundo contaram os policiais civis.

O bando agia nos bairros do Campo Belo, Jabaquara, Moema e Jardim Aeroporto. Preferiam horários em que os donos das casas saíam para trabalhar, entre 6h e 7h. Existem relatos de abordagens no retorno do trabalho, às 19h. A escolha de cada vítima era feita após um dos integrantes do bando fazer observações da rotina dos moradores – qual carro tinha e horário que entrava na casa.

Na lista de vítimas, está um casal de alemães moradores do Campo Belo. Depois de entrarem na casa às 6h, cinco assaltantes renderam uma mulher de 77 anos e o marido, de 88. Para intimidar, apagaram todas as luzes e usavam uma lanterna para identificar os bens da família. Na mesma região, uma aposentada de 93 anos foi ameaçada de morte caso o genro dela, de 63 anos, não entregasse joias e dinheiro.

O delegado Francisco Solano de Santana, da Delegacia de Repressão a Roubos e Extorsões, explica que o suspeito mais perigoso e violento, tido como o líder do bando, está entre os detidos. Gerson Roberto dos Santos, o Coelho, tem 26 anos, foi capturado em 11 de agosto, após trocar tiros com a Polícia Militar em um roubo.

Ele já chegou a ser reconhecido por duas vítimas porque tinha um detalhe diferente dos comparsas: usava aparelho nos dentes. Além dele, também estão presos Rodrigo Bispo da Silva, de 29, e Ricardo Araujo Correia, de 39. Os dois foram pegos em 14 de setembro após um crime em um imóvel no Campo Belo.

Dos dez boletins de ocorrência registrados no 35º DP (Jabaquara) e 27º DP (Campo Belo), duas vítimas reconheceram o grupo. Segundo o delegado, a ação dos assaltantes é tão violenta que as vítimas têm medo de fazer o reconhecimento por causa do trauma. Normalmente os ameaçados eram os idosos e crianças. “Fazemos um apelo para que as vítimas nos procurem”, disse Solano.

A reação do Morumbi

Um refúgio distante dos problemas dos bairros mais populosos da cidade, com terrenos espaçosos e cercados por um clima bucólico de interior. Esses eram os principais chamarizes do Morumbi quando ele começou a se desenvolver, em meados do século XX. Com o passar do tempo, ganhou uma série de outros atrativos. Em sua área de 11,5 quilômetros quadrados, encontram-se hoje a sede do governo paulista, o Palácio dos Bandeirantes, o maior estádio particular do Brasil, o Morumbi, e um dos mais modernos hospitais privados da América Latina, o Albert Einstein. Sua população cresceu rapidamente e atingiu a marca de 221.500 habitantes, considerando seus três distritos Morumbi, Vila Sônia e Vila Andrade. No mais rico deles, o do Morumbi, 64% dos domicílios contam com renda superior a vinte salários mínimos, o equivalente a 10.900 reais (na cidade, o índice é de 17%). As mansões que sempre conferiram à área um ar de riqueza dividem espaço hoje com um número de prédios cada vez maior — o bairro tornou-se o campeão da capital em lançamentos imobiliários, com 8.000 apartamentos novos comercializados nos últimos três anos. Apesar das enormes transformações, mantém-se como um oásis arborizado, com 239 metros quadrados de área verde por pessoa, o que corresponde a quase cinco vezes a média da cidade.

Nos últimos tempos, entretanto, a atmosfera de tranquilidade dessa região paulistana deu espaço a um grande sentimento de insegurança. Os moradores estão assustados com o recente aumento no número de roubos. Em julho, as duas delegacias responsáveis pela área, o 34º e o 89º DPs, contabilizavam um total de 325. No mês anterior, a situação tinha sido ainda pior, com um pico de 376. Considerando a evolução do problema desde o começo do ano, verificou-se um crescimento de 55,5% nas ocorrências ao longo do semestre, índice superior aos 11% registrados na capital. A modalidade de crime que se destaca no Morumbi são os roubos a residências. Entre 1º de julho e 24 de agosto, houve por ali 51 dessas ações, ou seja, uma média de quase uma por dia. Preocupados com o avanço da criminalidade, moradores se mobilizaram para chamar a atenção do poder público. Unido em torno de uma rede social na internet, um grupo de 4.000 integrantes imprimiu 15.000 panfletos, afixou 400 cartazes no bairro e organizou um protesto. Cerca de 2.500 pessoas participaram do ato, que terminou com um abraço simbólico na Praça Vinícius de Morais, vizinha ao Palácio dos Bandeirantes. Na ocasião, centenas de balões brancos foram soltos no céu. Nas rodas de conversa, era claro o impacto desses números negativos na rotina de quem vive na redondeza.

Senhoras comentavam que usam agora bolsas de “mentira”, com apenas alguns trocados dentro. Empresários aproveitavam o encontro para trocar dicas sobre sistemas de segurança patrimonial. “Comprei um equipamento que me permite ver no celular todas as oito câmeras da minha casa, em tempo real. Acesso o aplicativo de quinze em quinze minutos”, dizia o economista F.G. Ele teve sua casa invadida em 9 de maio e, assim como várias outras vítimas que concederam depoimentos à reportagem de VEJA SÃO PAULO, teme fornecer o próprio nome para evitar represálias. Perto de lá, e ao redor de muitos dos endereços assaltados neste ano, há placas anunciando a venda de imóveis. “As pessoas estão muito amedrontadas”, afirma Júlia Rezende, presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) do Morumbi. Não é de hoje que a região é visada por bandidos. As razões vão da grande concentração de moradores de alta renda convivendo ao lado de duas grandes favelas (Paraisópolis e Real Parque) às deficiências crônicas do bairro, como praças sem poda que acabam virando refúgio dos assaltantes e ruas mal iluminadas com pouco movimento à noite.

O que chama atenção agora é a ousadia dos criminosos. Muitos agem à luz do dia, portando armamentos pesados para intimidar as vítimas e entrar nas residências. “Na minha rua praticamente todo mundo já sofreu algum tipo de trauma”, conta o engenheiro Daniel Marques de Almeida, de 70 anos, internado desde 19 de agosto num hospital da região após ter sido baleado durante uma tentativa de roubo. Naquele dia, ele estava chegando em casa de carro e, quando abriu o portão, viu lá dentro duas pessoas estranhas. “Minha reação na hora foi acelerar”, relata. Acabou levando um tiro de fuzil nas costas. Hoje, tem dificuldade para mexer o lado esquerdo do corpo. Entre os pontos mais críticos do Morumbi estão as vias com saída para a Marginal Pinheiros, que servem de rota de fuga para os marginais, e a Rua Dr. Francisco Tomás de Carvalho, conhecida como ladeirão, que liga a Avenida Giovanni Gronchi à região da Vila Andrade, nas redondezas de Paraisópolis. “Ali, os roubos são muito frequentes”, diz o delegado Carlos Batista, titular do 89º DP. Ocorrem também problemas nas ruelas próximas ao Clube Paineiras. Depois dos assaltos recorrentes no local nos últimos meses, há um intenso movimento de carros da Polícia Militar e de segurança privada fazendo escolta de quem entra e sai das casas.

O crescimento das favelas da região nos últimos anos é um dos fatores que explicam a atual onda de criminalidade. Paraisópolis, a maior delas, surgida nos anos 60, tem hoje 80.000 habitantes e já é a segunda da cidade em população, atrás apenas de Heliópolis, na Zona Sul, com 100.000 pessoas. A Real Parque, por sua vez, dobrou de tamanho nos últimos cinco anos, chegando a 4.000 moradores. “Além de serem rota de fuga, as favelas abrigam parte dos bandidos que atuam no Morumbi”, afirma o capitão Claudisbel Barbosa dos Santos, comandante da 2ª Companhia do 16º Batalhão, responsável pelo bairro. Na opinião dos especialistas, não há uma quadrilha única por trás dos assaltos e roubos. “São os chamados crimes de oportunidade”, diz o coronel Álvaro Camilo, comandante-geral da PM no estado.

Em pronta resposta, a Secretaria de Segurança Pública, numa ação coordenada pelo secretário Antonio Ferreira Pinto, pôs em prática nas últimas semanas duas grandes operações. Em uma delas, batizada de Saturação, a PM ocupou as principais favelas, realizando bloqueios nas entradas e incursões ao seu interior para revistar moradores e prender suspeitos de roubos. Em outra, chamada de Colina Verde (em referência ao significado de Morumbi na língua tupi), reforçou em 50% o policiamento nas ruas do bairro, colocando mais 100 soldados por turno, um pelotão da Rota com cinco viaturas, quinze carros da Força Tática, trinta motos e o helicóptero Águia. Como resultado desse esforço, ocorreram doze prisões, uma apreensão de arma e 3.459 revistas em suspeitos, apenas entre 25 e 31 de agosto. Mais relevante ainda foi a queda da criminalidade nesse período em comparação com as ocorrências registradas na semana imediatamente anterior. Os roubos em geral caíram pela metade e os furtos sofreram uma redução de 33%. Nos próximos meses, as autoridades devem colocar mais bases móveis da PM na vizinhança e estudam instalar um ponto de policiamento permanente dentro de Paraisópolis, atendendo a uma antiga reivindicação dos moradores. Responsável por essas ações, a Secretaria de Segurança já conquistou vitórias importantes na batalha contra a criminalidade em São Paulo. A taxa de homicídios na capital nos primeiros seis meses deste ano foi de 8,3 mortes por 100.000 habitantes, o menor índice desde os anos 60. Apesar do avanço, ainda há muito que fazer. Os latrocínios, roubos seguidos de morte, por exemplo, cresceram 12% no período. Outro indicador que preocupa diz respeito aos crimes contra o patrimônio (roubo, furto e roubo de veículos, de cargas e a banco), que tiveram alta de 11,5% no primeiro semestre. A onda de assaltos no Morumbi integra a lista de novos desafios que precisam ser enfrentados. Os moradores e frequentadores de um dos melhores e mais valorizados bairros paulistanos torcem para que ele volte a ser, quanto antes, o mesmo oásis de tranquilidade que foi no passado.

Fonte: Revista Veja SP

Sobreviventes da violência: a dor solitária que nunca acaba

Famílias afetadas pela morte violenta de um parente relatam como enfrentam o sofrimento devastador; psicóloga que teve dois filhos mortos em assalto cria grupo de ajuda para quem vive esse mesmo drama

Filipe Rodrigues
São José dos Campos

“Fico parada e olho para a porta o dia todo. Minha esperança é que meu filho entre dizendo que tudo é mentira. Que nada aconteceu”.

O filho de 16 anos de Valquíria Maria da Silva Mack, 49 anos, é mais uma vítima direta da violência urbana. Ele foi baleado por um policial militar no dia 30 de maio e após receber alta do hospital foi escondido pelos pais em outra cidade.

No Vale do Paraíba, 144 pessoas sofreram tentativa de homicídio e outras 126 foram assassinadas até abril de 2011, segundo a Secretaria de Segurança Pública.

O trauma causado por esta violência não afeta apenas quem a sofreu. Parentes e pessoas próximas também são consideradas vítimas e carregam marcas deste trauma para o resto da vida.

Embora uma lei federal determine o auxílio “aos herdeiros e dependentes carentes de pessoas vitimadas por crime doloso”, a falta de políticas públicas dificulta a recuperação destas pessoas.

Superação
A cada dia, o número de vítimas da violência cresce mais. Sem apoio, elas criam as próprias receitas para superar a dor.

A família do pastor Nério dos Reis, 47 anos, morto na última terça-feira enquanto chegava em casa, no Parque Industrial, zona sul de São José, aposta na união para seguir a vida após a perda.

“Ele era nossa espinha dorsal. Vamos nos unir para voltarmos a ser uma família feliz”, diz Lilian dos Reis, 22 anos, filha do pastor.

União
Em Lorena, a psicóloga Alda Patrícia Fernandes Nunes Rangel, 63 anos, criou o grupo ‘Amor Infinito’ após perder os dois filhos, de 18 e 15 anos, assassinados durante um assalto em 1991.

“Luto compartilhado é luto amenizado. Se a vítima conhecer pessoas na mesma situação, divide a dor”.

O grupo se reúne a cada 15 dias no consultório de Alda, no Jardim Margarida. Mais informações no telefone (12) 3152-1688.

Órgão que dá apoio só atua em São Paulo
São José dos Campos

O governo do Estado de São Paulo criou em 1998 o Cravi (Centro de Referência e Apoio à Vítima), ligado à Secretaria de Justiça, para ajudar pessoas que sofrem direta ou indiretamente com a violência.

Segundo Shigueo Kuwahara, coordenador do programa, hoje o atendimento é voltado para moradores da capital e da grande São Paulo, mas um projeto pretende ampliar o atendimento para todo o Estado.

“Para viabilizar isso é necessário uma grande parceria institucional, com órgãos como OAB, prefeitura, judiciário e representantes da sociedade. O objetivo do trabalho do Cravi é dar voz e visibilidade às vítimas e suas demandas, não só assistenciais”.

O coordenador reforça que para que a iniciativa seja levada a outras cidades é necessário que as prefeituras procurem o Cravi com uma proposta para que a instituição possa ser criada no município.

Lei
O atendimento do Cravi é baseado no artigo 245 da Constituição Federal e no Decreto n.º 42.209/97, no Programa Estadual de Direitos Humanos. Ambas as leis obrigam o poder público a dar assistência a vítimas de crime doloso.

Kuwahara explica que a estrutura do Cravi é formada por 10 pessoas: cinco defensores públicos, três psicólogos e dois assistentes sociais. Para 2011, a expectativa é que 300 pessoas sejam atendidas.

“Nós não vamos até a vítima pois a busca ativa pode assustar a pessoa. Ela nos traz seu relato e a encaminhamos para receber o apoio de uma rede própria”, diz Shigueo.

O coordenador afirma que o órgão trabalha principalmente com a orientação jurídica e psicológica das vítimas.

“Nossa maior preocupação está em não permitir que a vítima entre em processo de autodestruição, o que não é incomum de acontecer”.

Fonte: O Vale